Dois Buldogues Campeiros no ringue das Américas e Caribe 2026 — raça brasileira reconhecida pela FCI em agosto de 2025

As raças genuinamente brasileiras: quatro já têm passaporte internacional- e outras seis estão no caminho

Raças & Cinofilia
Instinto Canino  ·  Julho 2026  ·  Fontes: FCI, CBKC, Cães & Cia, Expointer RS

O Brasil tem um dos maiores territórios do mundo, cinco biomas, mais de 500 anos de história com cães de trabalho — e apenas quatro raças reconhecidas internacionalmente pela FCI. A conquista mais recente aconteceu em agosto de 2025: o Buldogue Campeiro. Uma a uma, as raças genuinamente brasileiras estão ganhando passaporte internacional.

Dois Buldogues Campeiros no ringue das Américas e Caribe 2026 — raça brasileira reconhecida pela FCI em agosto de 2025
Quatro raças brasileiras têm reconhecimento internacional pela FCI. Outras seis aguardam em processo de aprovação. É o maior conjunto de raças nativas em construção que o Brasil já teve.

O paradoxo: país continental com apenas quatro raças brasileiras reconhecidas pela FCI

A Europa tem mais de 200 raças reconhecidas pela FCI (Fédération Cynologique Internationale — Federação Cinológica Internacional, com sede na Bélgica). A Alemanha sozinha tem mais de 40. O Brasil, com território maior que a Europa continental, clima diverso e cinco séculos de seleção natural de cães de trabalho e caça, chegou a 2025 com quatro raças brasileiras com passaporte internacional.

A explicação não é falta de diversidade genética — é falta de organização histórica. O processo de reconhecimento FCI exige padrão escrito, registro genealógico documentado ao longo de gerações, exposições verificadas, estabilidade genética comprovada e apresentação formal pela entidade nacional. É um trabalho de décadas. O Brasil começou esse caminho mais tarde do que a Europa, mas está acelerando.

O Grupo 11 da CBKC — onde as próximas campeãs estão hoje

A CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia), única entidade brasileira filiada à FCI, criou o Grupo 11 para abrigar raças brasileiras em processo de reconhecimento. Nesse grupo competem hoje seis raças que têm reconhecimento nacional mas ainda não têm padrão FCI aprovado. É a antessala do passaporte internacional — e a trajetória do Buldogue Campeiro, que cruzou essa fronteira em 2025, mostra que o processo funciona.

O processo FCI — por que o reconhecimento leva décadas

O reconhecimento da FCI não é uma formalidade. É a conclusão de um processo que pode levar 20, 30 ou 40 anos — e que exige estabilidade genética que simplesmente não pode ser criada artificialmente em tempo curto.

1
Padrão escrito e aprovado — a raça precisa ter características suficientemente estáveis para serem descritas com precisão: altura, peso, proporções, pelagem, temperamento, faltas e eliminatórias.
2
Número mínimo de exemplares registrados — o plantel deve ser amplo o suficiente para sustentar uma população saudável sem consanguinidade excessiva.
3
Exposições e exames morfológicos documentados — os cães precisam ser avaliados por juízes em exposições, com registros que comprovem conformidade ao padrão ao longo do tempo.
4
Estabilidade genética comprovada por gerações — crias de crias precisam manter as características da raça. Isso não pode ser fabricado — é o resultado de décadas de seleção cuidadosa.
5
Apresentação formal e aprovação pelas comissões FCI — a CBKC apresenta o dossiê completo às comissões científica e de padrões da FCI, em Thuin, Bélgica. A aprovação pode exigir ajustes e novas rodadas de análise.
6
Publicação do padrão oficial — reconhecimento concedido, padrão publicado com número FCI. A partir desse momento, a raça compete internacionalmente e pedigrees são válidos em todos os 98 países membros.

As quatro raças brasileiras com reconhecimento FCI

RaçaFCI nºGrupoReconhecimento
Fila Brasileiro225Grupo 2 — Molossóide tipo Mastife1960
Rastreador Brasileiro275Grupo 6 — Cães de Faro e Rastreadores1967 · extinto 1973 · reativado 2012
Terrier Brasileiro341Grupo 3 — TerriersReconhecido pela FCI
Buldogue Campeiro Novo 2025374Grupo 2 — Molossóide tipo MastifeAgosto 2025
Fila Brasileiro leonado em postura de show com handler ajoelhado no ringue das Américas e Caribe 2026 — raça brasileira FCI nº 225
Fila Brasileiro nas Américas e Caribe 2026, Rio de Janeiro. Reconhecido pela FCI desde 1960, o maior molosso nativo das Américas é presença constante nas grandes exposições continentais. Foto: Instinto Canino / Américas e Caribe 2026

Fila Brasileiro — FCI nº 225

Fila Brasileiro
Reconhecimento FCI: 1960 · Padrão vigente: 29/09/2016
FCI nº 225

O maior molosso nativo das Américas. Desenvolvido nas fazendas coloniais brasileiras a partir de Bloodhound, Buldogue e Mastim Inglês, o Fila foi selecionado por séculos para guarda de propriedades, condução de gado e caça de animais de grande porte. Classificado no Grupo 2 da FCI, Seção 2.1 — Molossóide tipo Mastife.

Define o temperamento da raça o conceito de aversão a estranhos — codificado no padrão CBKC atual como “Caracteriza-se pela aversão a estranhos, sendo de manejo controlado particularmente em pista de exposição.” O CAFIB (Clube de Aprimoramento do Fila Brasileiro) mantém o termo histórico ojeriza no seu padrão.

Proibido no Reino Unido pelo Dangerous Dogs Act e não reconhecido pelo AKC, o Fila é ao mesmo tempo símbolo máximo da cinofilia brasileira e a raça nacional com maior presença internacional nas exposições FCI da América Latina.

Artigo completo no portal
Fila Brasileiro: ojeriza, padrão FCI e tudo que você precisa saber
História colonial, o conceito de ojeriza, o padrão CBKC/FCI em detalhe, CBKC vs. CAFIB, passo de camelo e as faltas eliminatórias.

Ler o artigo completo sobre o Fila Brasileiro →

Rastreador Brasileiro — FCI nº 275 — a raça que ressuscitou

Rastreador Brasileiro
FCI 1967 · Extinto 1973 · Reativado pela CBKC 2012
FCI nº 275

A história mais dramática da cinofilia brasileira. Na década de 1950, Oswaldo Aranha Filho desenvolveu o Rastreador Brasileiro com um objetivo preciso: um cão capaz de rastrear onças e porcos-do-mato na vegetação do Brasil central.

A partir de cruzamentos de Foxhound Americano, Black and Tan Coonhound, Petit Bleu de Gascogne, Veadeiro Pampeano e outras raças, Aranha construiu um sabujo com faro excepcional, resistência ao clima tropical e um urro característico que orientava os caçadores.

Em 1967, com três juízes internacionais da FCI visitando o Brasil, Aranha apresentou toda a documentação exigida e obteve o reconhecimento — o Rastreador foi inscrito como FCI nº 275, Grupo 6. Seis anos depois, a tragédia: uma epidemia de piroplasmose combinada com intoxicação por excesso de carrapaticida dizimou os 39 exemplares do plantel de Aranha. Em 1974, a raça foi declarada extinta.

A sobrevivência veio de uma decisão anterior de Aranha: durante o desenvolvimento da raça, ele havia doado mais de 30 machos a caçadores e fazendeiros do Sudeste e Centro-Oeste para testar o desempenho em campo. Esses cães se reproduziram.

Décadas depois, a partir dos anos 2000, um grupo de criadores iniciou o mapeamento dos descendentes espalhados por vários estados. O trabalho durou anos. No final de 2012, a CBKC retomou oficialmente os registros da raça — e o Rastreador voltou à vida.

Terrier Brasileiro bicolor em postura natural no ringue das Américas e Caribe 2026 — raça brasileira FCI nº 341
Terrier Brasileiro nas Américas e Caribe 2026, Rio de Janeiro. O Fox Paulistinha — única raça terrier de origem brasileira — vem conquistando presença crescente nas exposições internacionais. Foto: Instinto Canino / Américas e Caribe 2026

Terrier Brasileiro — FCI nº 341 — o embaixador europeu

Terrier Brasileiro (Fox Paulistinha)
Reconhecido pela FCI · Grupo 3 — Terriers
FCI nº 341

Desenvolvido no Brasil a partir do século XIX com base em Terriers ingleses e cães locais, o Fox Paulistinha — como é chamado popularmente — é a única raça terrier de origem brasileira. Ágil, inteligente, de porte pequeno a médio (33 a 40 cm, 6 a 9 kg), com temperamento característico dos terriers: determinado, ativo, excelente para estimulação mental.

A raça está em ascensão nas exposições europeias — uma trajetória que o portal já documentou em detalhes. O Rumor MDV do Jardim Imbuí, conhecido como Mak, venceu o BIS da Interra — a maior especializada de terriers do mundo — com 10 meses, e foi terceiro jovem classificado no Euro Dog Show com 7.000 inscrições.

Artigo completo no portal
Terrier Brasileiro: o Fox Paulistinha que conquista a Europa enquanto o Brasil não presta atenção
História, padrão FCI, temperamento e o fenômeno Mak nas exposições europeias.

Ler o artigo completo sobre o Terrier Brasileiro →

Buldogue Campeiro — FCI nº 374 — a conquista de agosto de 2025

Buldogue Campeiro Novo 2025
Padrão FCI publicado: 06/08/2025 · Grupo 2, Seção 2.1 — Molossóide tipo Mastife
FCI nº 374

A quarta raça brasileira a receber reconhecimento internacional — e a mais recente conquista da cinofilia nacional. O Buldogue Campeiro foi reconhecido pela FCI em agosto de 2025, com o padrão oficial publicado em 6 de agosto de 2025. O certificado internacional foi entregue durante a Expointer RS, o maior evento agropecuário do Brasil.

A raça tem origem nos Bulldogs ingleses que chegaram ao Brasil com imigrantes europeus e foram adaptados pelos criadores do Sul do país para o trabalho com gado. O nome define a função: “campeiro” remete ao campo, aos pampas gaúchos, à lida com rebanhos. Historicamente usado na contenção e condução de bovinos — inclusive em matadouros — o Buldogue Campeiro é um cão de trabalho que quase desapareceu.

Há cerca de 30 anos, a raça esteve à beira da extinção. O processo de resgate e organização dos criadores gaúchos, liderado pelo Conselho Brasileiro dos Criadores de Buldogue Campeiro junto à CBKC, levou cinco anos até a aprovação da FCI em 2025.

Segundo criadores presentes na Expointer, o reconhecimento “representa o campo e a pecuária de uma lida, que trabalha com gado e com ovelha, com reconhecimento internacional pela FCI, do Brasil para o mundo.”

Medidas FCI: Machos 51–58 cm · Fêmeas 49–56 cm · Utilização: cão guardião de gado, cão de guarda e companhia · Classificação: Grupo 2, Seção 2.1, sem prova de trabalho.

Pastor da Mantiqueira nas Américas e Caribe 2026 — raça brasileira em processo de reconhecimento pela FCI no Grupo 11 da CBKC
Pastor da Mantiqueira nas Américas e Caribe 2026. Uma das seis raças brasileiras atualmente em processo de reconhecimento internacional pela FCI — aguarda no Grupo 11 da CBKC. Foto: Instinto Canino / Américas e Caribe 2026

As próximas na fila — seis raças brasileiras em processo de reconhecimento FCI

Além das quatro já reconhecidas, a CBKC tem seis raças no Grupo 11 — o grupo especial para raças em processo de aprovação internacional. Cada uma representa um pedaço do patrimônio genético e cultural brasileiro ainda pouco documentado internacionalmente.

Ovelheiro Gaúcho
Candidato ao reconhecimento FCI
Cão pastor dos pampas gaúchos. Desenvolvido para o pastoreio de ovinos nos campos do Rio Grande do Sul — resistente, ágil, adaptado ao clima pampeano. Considerado o próximo candidato natural ao passaporte internacional.
Veadeiro Pampeano
Resgate em andamento desde 2021
Cão de caça originário do Brasil, com presença também na Argentina e Uruguai. Reconhecido pela CBKC em 2000, suspenso entre 2012-2020 após o falecimento do principal responsável pela raça, o cinófilo Carlos Bacelar. Reativado em 2021 pela FECIRS. Segunda história de ressurreição da cinofilia brasileira.
Pastor da Mantiqueira
Reconhecido pela CBKC
Cão de pastoreio de porte médio, originário da Serra da Mantiqueira, no Sudeste do Brasil. Conhecido popularmente como “policialzinho” — nome que revela sua versatilidade. Em processo de reconhecimento FCI.
Veadeiro Nacional
Reconhecido pela CBKC
Sabujo brasileiro de caça, em estágio inicial do processo de reconhecimento internacional. Representa o patrimônio de caça das regiões Nordeste e Centro-Oeste.
Buldogue Serrano
Reconhecido pela CBKC
Raça de trabalho com gado das serras do Sul do Brasil. Distinto do Buldogue Campeiro, com características próprias desenvolvidas em ambiente de altitude. Em fase inicial do processo FCI.
Dogue Brasileiro
Reconhecido pela CBKC
Cão de guarda e trabalho de grande porte, reconhecido pela CBKC. Em processo de consolidação do plantel e documentação necessária para o processo FCI.

Por que o reconhecimento importa além da vaidade cinófila

O reconhecimento FCI não é um troféu para as raças brasileiras. É um mecanismo de preservação genética. Uma raça reconhecida tem padrão escrito, registro genealógico obrigatório, seleção documentada ao longo de gerações e acesso ao mercado internacional de criadores comprometidos. Sem essas estruturas, a raça se dissolve em cruzamentos aleatórios e perde, silenciosamente, as características funcionais que a definem.

O Rastreador Brasileiro é o aviso histórico: uma raça pode desaparecer em uma geração quando o registro está concentrado em um único criador e não há rede de apoio. O mesmo risco existia para o Buldogue Campeiro há 30 anos. O trabalho invisível de décadas — os registros, as exposições, a seleção cuidadosa, a apresentação formal à FCI — é o que separa uma raça viva de uma nota de rodapé na história da cinofilia.

O risco da popularização sem organização O caminho inverso também existe: raças que gannam popularidade antes de ter estrutura de registro e seleção organizada deterioram rapidamente. A lição do Bulldog Francês — que explodiu em popularidade antes que os problemas estruturais de saúde fossem amplamente documentados — vale para qualquer raça nativa que ganhe visibilidade sem a base que o processo FCI exige.

As raças brasileiras nas grandes exposições

As quatro raças brasileiras com reconhecimento FCI competem nos grupos internacionais em exposições de todo o mundo. As seis do Grupo 11 competem nas exposições brasileiras e latino-americanas em categoria específica — onde também são avaliadas por juízes internacionais, acumulando o histórico de exposição que o processo FCI exige.

O SICALAM 2027 em Gramado, RS, será o maior palco continental para as raças da América Latina no próximo ciclo. Para as raças brasileiras, competir no Sul do Brasil — região onde o Buldogue Campeiro foi criado e onde o Ovelheiro Gaúcho tem sua maior concentração de criadores — tem um significado particular que vai além do resultado em ringue.

No portal
SICALAM 2027 Gramado — o maior palco continental da cinofilia latino-americana
Serra Park, Gramado, RS. 25 a 27 de junho de 2027. O maior evento de raças da América Latina e o palco para as raças genuinamente brasileiras em 2027.

Guia completo SICALAM 2027 →
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  • Raças → Ovelheiro Gaúcho: o cão pastor dos pampas que pode ser a próxima raça brasileira com passaporte internacional
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  • Raças → Rastreador Brasileiro: a história completa da raça que foi declarada extinta e ressuscitou
FontesFCI — Padrão Buldogue Campeiro, St. FCI nº 374, publicado 06/08/2025. fci.be

CBKC — Padrão oficial Buldogue Campeiro (FCI nº 374, CBKC). cbkc.org

Expointer RS — “Buldogue Campeiro recebeu certificação internacional em 2025 e é destaque na Expointer.” Setembro 2025. expointer.rs.gov.br

Cães & Cia — “Rastreador Brasileiro: reconhecido pela FCI.” História do resgate e reativação em 2012. caes-e-cia.com.br

Fazenda Talisman — “A raça Rastreador Brasileiro.” Histórico completo com raças utilizadas no desenvolvimento e genealogia. talisman.agr.br

Folha PE / Folha Pet — “Raças do Brasil: Rastreador Brasileiro foi salvo da extinção.” Junho 2024. folhape.com.br

CBKC — Confederação Brasileira de Cinofilia. Grupos, rankings e raças em processo de reconhecimento. cbkc.org

FCI — Padrão Fila Brasileiro, nº 225. Padrão Rastreador Brasileiro, nº 275. Padrão Terrier Brasileiro, nº 341. fci.be