Leishmaniose canina: o que todo dono no Brasil precisa saber – e o que mudou com a suspensão da vacina
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A leishmaniose canina é uma das doenças mais graves que um cão pode contrair no Brasil. É uma zoonose — afeta cães e humanos pelo mesmo vetor. E desde maio de 2023, o dono brasileiro que quer vacinar o cão contra ela não pode: a única vacina registrada no país teve sua comercialização suspensa. Em 2026, não há vacina licenciada disponível no Brasil para leishmaniose visceral canina. Este artigo explica o que a doença é, como se transmite, onde está o risco, quais são os sinais, o que fazer para prevenir sem vacina e o que acontece quando o diagnóstico é positivo.

Em julho de 2026, a nota de suspensão do MAPA permanece ativa. Não há vacina licenciada disponível no Brasil para leishmaniose visceral canina.
A Ceva Saúde Animal, distribuidora da Leish-Tec, informou que está trabalhando para corrigir a causa primária da desestabilização da proteína A2. Por se tratar de uma vacina recombinante de alta tecnologia, o processo pode se prolongar por vários meses — e não há previsão definida de retorno ao mercado.
O que é a leishmaniose canina
A leishmaniose é uma doença parasitária causada por protozoários do gênero Leishmania. No Brasil, o agente da forma mais grave — a visceral — é a Leishmania infantum, também conhecida como L. chagasi. O parasita circula entre animais e humanos por um único vetor: a fêmea do mosquito-palha, inseto da família dos flebotomíneos. No Brasil, a principal espécie responsável pela transmissão é a Lutzomyia longipalpis.
Existem duas formas da doença com relevância no Brasil. A leishmaniose visceral canina — também chamada de calazar — é a mais grave: afeta órgãos internos como baço, fígado, medula óssea e rins, e pode ser fatal sem tratamento. A leishmaniose tegumentar — principalmente cutânea — produz lesões de pele ulceradas e é de menor gravidade sistêmica, embora exija tratamento.
Onde está o risco no Brasil: a doença que avançou para as cidades
A leishmaniose visceral no Brasil deixou de ser exclusividade do interior semi-árido nordestino. Esse processo de urbanização do vetor e da doença está documentado e acelerou nas últimas décadas. O mosquito-palha é altamente adaptável: reproduz-se em matéria orgânica em decomposição, vegetação densa e ambientes úmidos — condições encontradas nas periferias de grandes centros urbanos.
Os estados com maior incidência histórica de leishmaniose visceral são Minas Gerais, Piauí, Maranhão, Bahia, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Mas a doença já foi confirmada nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Campo Grande e Belo Horizonte. Cães urbanos de capitais são diagnosticados com leishmaniose.
O dono de cão do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte que pensa que a leishmaniose é “coisa do interior” está operando com informação desatualizada. O risco existe, varia por bairro e por período do ano, e depende fundamentalmente da presença do mosquito-palha na região.
As três ilusões do dono urbano sobre a leishmaniose canina
Muitos donos de cães em apartamentos de capitais ignoram a leishmaniose porque entendem mal como a dinâmica da doença funciona na cidade. Três equívocos são especialmente comuns:
Os sinais clínicos: quando suspeitar de leishmaniose canina

A leishmaniose visceral canina é chamada de “doença dos mil rostos” por uma razão precisa: seus sinais clínicos são inespecíficos e mimetizam diversas outras doenças. O período de incubação pode ser de meses a anos — um cão pode estar infectado por longos períodos sem apresentar qualquer sinal visível.
Os sinais mais comuns, confirmados em estudos clínicos brasileiros:
O diagnóstico: exame laboratorial é obrigatório

Não existe diagnóstico clínico de leishmaniose canina. Os sinais, por mais sugestivos que sejam, não são exclusivos da doença — e o tratamento só pode ser iniciado após confirmação laboratorial. Os métodos disponíveis no Brasil:
- Sorologia — ELISA (Ensaio de Imunoabsorção Enzimática) e RIFI (Reação de Imunofluorescência Indireta): detectam anticorpos produzidos pelo organismo do cão contra a Leishmania. São os métodos de triagem inicial e os mais amplamente disponíveis em laboratórios veterinários. Cães com nível elevado de anticorpos — definido como elevação de 3 a 4 vezes acima do nível de referência — têm diagnóstico considerado conclusivo. Níveis baixos a moderados exigem confirmação por outros métodos.
- PCR — reação em cadeia da polimerase: detecta o DNA do parasita em amostras de sangue, linfonodo ou medula óssea. Maior sensibilidade que a sorologia, especialmente em cães assintomáticos ou com título baixo de anticorpos.
- Punção de linfonodo ou medula óssea: padrão-ouro para confirmação — permite visualização direta do parasita. Procedimento invasivo, realizado em ambiente veterinário.
Para cães que vivem ou transitam por regiões endêmicas, a recomendação das diretrizes BRASILEISH — o grupo nacional de especialistas em leishmaniose canina que reúne médicos-veterinários de universidades e centros de referência brasileiros e publicou o protocolo oficial de diagnóstico e tratamento da doença — é sorologia anual, mesmo sem sintomas. O diagnóstico em fase assintomática ou inicial muda completamente o prognóstico e a carga parasitária ao longo do tempo.
A vacina contra leishmaniose canina: o que era, o que aconteceu e onde está
A Leish-Tec foi desenvolvida pelo laboratório de Biotecnologia e Marcadores Moleculares da UFMG e chegou ao mercado brasileiro em 2008, tornando-se a única vacina registrada pelo MAPA para leishmaniose visceral canina no país. Sua eficácia documentada em estudos clínicos foi de 96,41% de proteção no grupo vacinado. O protocolo original envolvia três doses iniciais com intervalo de 21 dias a partir dos 4 meses de idade, seguidas de reforço anual. A vacina era indicada exclusivamente para cães assintomáticos com sorologia negativa — nunca para cães já infectados.
Após fiscalização realizada entre 8 e 11 de maio de 2023 nas instalações da fabricante, o MAPA — Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento — identificou desvios de conformidade em lotes da Leish-Tec. Oito lotes foram reprovados (029/22; 037/22; 043/22; 044/22; 060/22; 004/23; 006/23; 017/23) por apresentarem teor do antígeno da proteína A2 abaixo do limite mínimo estabelecido na licença do produto. Esse antígeno é o componente ativo que induz a resposta imune protetora nos cães vacinados — sem ele em concentração adequada, a vacina não confere proteção.
A Ceva Saúde Animal, distribuidora do produto, esclareceu que a desestabilização ocorreu ao longo da validade dos produtos — ou seja, os lotes foram aprovados na liberação e foram perdendo eficácia durante o prazo de comercialização. Por se tratar de uma vacina recombinante de alta tecnologia, a investigação da causa primária e o desenvolvimento da solução podem se prolongar por vários meses. A empresa não estabeleceu previsão de retorno ao mercado.
Em julho de 2026, o dono brasileiro que deseja vacinar o cão contra leishmaniose visceral não tem essa opção disponível em território nacional. Existe, para registro, uma vacina chamada LetiFend disponível na Europa para uso em cães a partir dos 6 meses de idade — uma dose com reforço anual — aprovada pela Agência Europeia de Medicamentos. Ela não está licenciada no Brasil e sua importação para uso individual não é legalmente autorizada.
Prevenção da leishmaniose canina sem vacina: o protocolo atual
Com a ausência da vacina, a prevenção combinada é o único caminho disponível. Nenhuma das medidas isoladamente oferece proteção equivalente à que a Leish-Tec oferecia quando disponível — a combinação de estratégias é obrigatória para reduzir o risco de forma significativa.
Coleira repelente
Coleiras impregnadas com inseticidas como deltametrina ou flumetrina são a principal ferramenta de prevenção individual disponível. Agem repelindo e eliminando o mosquito-palha antes que ele complete a picada. A eficácia é progressiva e decai ao longo do tempo — a troca dentro do prazo recomendado pelo fabricante é essencial para manter a proteção. A escolha do produto e a indicação de uso devem ser orientadas pelo veterinário.
Repelente tópico
Produtos aprovados para uso veterinário com ação repelente sobre flebotomíneos podem ser utilizados como complemento à coleira, especialmente em regiões de alto risco e nas estações de maior atividade do vetor. A aplicação deve seguir orientação veterinária.
Manejo ambiental
- Manter a grama aparada e o quintal limpo — reduzem os criadouros do mosquito-palha, que se reproduz em matéria orgânica em decomposição.
- Remover folhas secas, frutos caídos e qualquer acúmulo de matéria orgânica úmida.
- Instalar telas nas janelas e aberturas do canil — especialmente ao entardecer e no início da noite, período de maior atividade do mosquito-palha.
- Evitar passeios com o cão no horário de pico de atividade do vetor (entardecer até início da noite) em regiões endêmicas.
Tratamento: o que o dono precisa saber

A leishmaniose canina visceral não tem cura. O objetivo do tratamento é o controle clínico — redução da carga parasitária, melhora dos sinais clínicos e preservação da qualidade de vida — não a eliminação do parasita. O cão tratado com sucesso não está curado: permanece como reservatório e requer prevenção continuada e acompanhamento veterinário semestral.
O Milteforan — princípio ativo miltefosina, registrado no MAPA pela Virbac Saúde Animal — é o único medicamento licenciado no Brasil para o tratamento da leishmaniose visceral canina (LVC). O registro foi autorizado por Nota Técnica Conjunta nº 001/2016, assinada pelo MAPA e pelo Ministério da Saúde, em conformidade com a Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008 — que proíbe o tratamento de LVC com produtos de uso humano ou não registrados no MAPA.
O tratamento com Milteforan é frequentemente associado ao alopurinol, um antiparasitário que age complementarmente para o controle a longo prazo da carga parasitária. O protocolo específico é definido pelo médico-veterinário com base no estadiamento clínico do animal — seguindo as diretrizes BRASILEISH de 2018.
Leishmaniose canina e saúde pública
A leishmaniose visceral é uma zoonose de notificação compulsória no Brasil — qualquer caso diagnosticado deve ser comunicado ao serviço de saúde municipal. Isso se aplica tanto ao caso humano quanto ao caso canino.
O cão positivo em domicílio não transmite a doença por contato direto a nenhum membro da família. Mas sua presença aumenta o risco de picadas de mosquito infectado para os humanos do mesmo ambiente. O Ministério da Saúde recomenda que cães diagnosticados recebam tratamento para redução da carga parasitária — o animal tratado tem menor densidade de parasitas na pele e no sangue, o que reduz a infectividade para o vetor.
O que fazer quando o diagnóstico do cão é positivo: informar ao serviço de saúde municipal, adotar medidas de proteção ambiental, manter o cão em tratamento veterinário e em prevenção contínua contra o mosquito-palha.
O que o dono de cão deve fazer hoje para proteger o animal da leishmaniose canina
- Identificar se mora ou transita por região de risco: leishmaniose não é exclusiva do interior — periferias de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campo Grande já têm casos confirmados.
- Conversar com veterinário sobre protocolo de prevenção individual: coleira repelente adequada ao porte e estilo de vida do cão, repelente tópico complementar se necessário.
- Sorologia anual em regiões endêmicas: mesmo sem sintomas — o diagnóstico precoce muda o prognóstico. Cão assintomático não significa cão não infectado.
- Manejo ambiental doméstico: quintal limpo, telas nas janelas, evitar passeios no horário de pico do mosquito-palha.
- Acompanhar o retorno da Leish-Tec: quando a vacina voltar ao mercado e for licenciada pelo MAPA, a vacinação deve ser prioridade — especialmente para cães com sorologia negativa que vivem em regiões endêmicas.
- Não esperar sintomas para agir: a leishmaniose canina frequentemente evolui de forma silenciosa. No cenário atual — sem vacina disponível — a prevenção ativa é o único caminho seguro.
Ler o artigo sobre vacinação canina →
Ceva Saúde Animal. Nota sobre suspensão da Leish-Tec, 2023. Reproduzida em: Cobasi. Vacina contra leishmaniose: entenda a suspensão e como manter seu pet seguro. Julho de 2025. blog.cobasi.com.br
Portal do Dog. Vacina contra leishmaniose canina é suspensa no Brasil. Agosto de 2025. portaldodog.com.br
CFMV — Conselho Federal de Medicina Veterinária. Perguntas e respostas sobre leishmaniose visceral canina — questões técnicas e legais. cfmv.gov.br
BRASILEISH. Diretrizes para diagnóstico, estadiamento, tratamento e prevenção da leishmaniose visceral canina. 2018.
Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008. Proíbe o tratamento de leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano ou não registrados no MAPA. bvsms.saude.gov.br
Nota Técnica Conjunta nº 001/2016 MAPA/MS. Autorização de registro do Milteforan (miltefosina) para tratamento de leishmaniose visceral canina no Brasil.
Ministério da Saúde — SINAN. Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Dados de leishmaniose visceral humana, 2021.
UFSC — TCC: Leishmaniose visceral canina: sinais clínicos e diagnóstico — análise de casos SediVet 2021–2024. 2025. repositorio.ufsc.br
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