Cachorro brasileiro vira-lata em rua de cidade grande — o cão mais estudado pela ciência comportamental nacional

O cachorro brasileiro: o que a ciência encontrou sobre medo, ansiedade e agressividade no Brasil

Comportamento & Adestramento Série: O Comportamento Canino — Artigo 2 de 3
Instinto Canino  ·  Abril de 2026  ·  Fontes: LECA/UNIFESP, USP, SciELO, Applied Animal Behaviour Science, Scientific Reports, ScienceDirect

O cachorro brasileiro tem um perfil que a ciência americana e europeia não estudou. Quase tudo o que se sabe sobre comportamento canino veio de laboratórios de outro continente — casas com jardim, pouca lotação urbana, outro repertório de raças. Nas últimas décadas, pesquisadores brasileiros começaram a olhar para o cão daqui: o vira-lata de rua, o apartamento carioca, os fogos de artifício do Réveillon. O que encontraram não contradiz a ciência global — mas a especifica. E algumas conclusões mudam.

Cachorro brasileiro vira-lata em rua de cidade grande — o cão mais estudado pela ciência comportamental nacional
O vira-lata é o cão mais comum no Brasil e o que mais aparece nos estudos nacionais — com um perfil comportamental que a ciência europeia e americana não captura.

O maior plantel do mundo que a ciência ainda não olhou direito

O Brasil tem o terceiro maior plantel de cães do mundo — cerca de 58 milhões de animais, segundo dados da ABINPET (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação). É mais do que qualquer país europeu. Mas quando se procura pesquisa científica sobre o comportamento do cachorro brasileiro, a maioria dos resultados vem de outros países.

Não é por falta de problema. É por falta de ferramenta adequada. Os questionários usados para avaliar temperamento e comportamento canino foram construídos e validados para o inglês — e para a cultura onde o inglês é falado. Traduzir não é suficiente. Um questionário desenvolvido nos Estados Unidos, onde cães geralmente dormem dentro de casa desde filhotes, não captura da mesma forma a realidade de um cão que viveu a primeira metade da vida numa calçada carioca.

Foi essa lacuna que um grupo de pesquisadores brasileiros começou a preencher, com financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e publicações em periódicos internacionais de alto impacto.

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LECA — Laboratório de Etologia Canina / UNIFESP
Coordenação: Profa. Dra. Carine Savalli Redigolo · UNIFESP Baixada Santista, Santos, SP · Colaboração: Instituto de Psicologia da USP (Profa. Dra. Briseida Resende, Dra. Natália Albuquerque)

Principal grupo de pesquisa em etologia canina do Brasil. Desde 2006, o laboratório produz estudos sobre comportamento, cognição e temperamento canino, com dados coletados diretamente de proprietários brasileiros. O grupo validou o C-BARQ (principal ferramenta de avaliação comportamental do mundo) e o PANAS para o português e para a cultura brasileira — trabalho realizado com co-autoria do próprio James Serpell, da Universidade da Pensilvânia. Resultados publicados em Scientific Reports, Applied Animal Behaviour Science, Behavioural Processes e Journal of Veterinary Behavior.

O vira-lata e o medo: o dado mais importante para o Brasil

Nos Estados Unidos, cães sem raça definida correspondem a uma fatia relevante da população, mas raças puras dominam as estatísticas dos estudos. No Brasil, o cenário é invertido. O cachorro brasileiro sem raça definida — os SRDs (Sem Raça Definida), popularmente chamados de vira-latas — é maioria absoluta. E o comportamento deles, segundo a pesquisa brasileira, tem características específicas.

Em um estudo publicado na Scientific Reports em 2019, pesquisadores do LECA/UNIFESP avaliaram o temperamento de 1.744 cães brasileiros usando o PANAS (Positive and Negative Activation Scale — Escala de Ativação Positiva e Negativa), questionário de temperamento validado para o português com colaboração do Prof. Daniel Mills, da Universidade de Lincoln (UK). Os resultados para os SRDs foram consistentes e relevantes.

mais risco de medo de barulhos e objetos em SRDs vs. cães de raça
1,8×
mais risco de medo de estranhos em SRDs
1.744
cães brasileiros avaliados no estudo PANAS (UNIFESP/USP, 2019)
35,5%
da amostra eram SRDs — proporção próxima da realidade nacional
Fonte: Savalli et al., Scientific Reports, 2019

A pesquisadora Carine Savalli aponta um elemento contextual importante: a explicação mais provável para esse padrão é o histórico de vida. Cães que passaram tempo nas ruas ou em abrigos — cenário comum para SRDs no Brasil — foram expostos a um ambiente muito mais imprevisível e estressante durante o período crítico de socialização. O medo que persiste na vida adulta é, em muitos casos, uma memória de como o mundo era antes da adoção.

O que isso significa na prática Se você adotou um SRD adulto — especialmente um resgatado da rua ou de abrigo — o ponto de partida comportamental é diferente do de um filhote criado desde o início em ambiente doméstico. Não é defeito: é história. A abordagem de modificação comportamental precisa considerar esse histórico. Progressos menores, em passos mais graduais, são esperados e normais.

Fogos de artifício: o gatilho que os estudos americanos não destacam

Em 2025, um grupo de pesquisadores validou para o Brasil a LCAS (Lincoln Canine Anxiety Scale — Escala de Ansiedade Canina de Lincoln), desenvolvida originalmente na Universidade de Lincoln, UK. A versão brasileira — LCAS-Br — foi testada com 795 cães, com dados coletados por meio de questionários respondidos pelos próprios donos.

O resultado sobre gatilhos de ansiedade específicos tem valor particular para o contexto brasileiro.

27,5%
dos cães têm fogos de artifício como principal gatilho de ansiedade
20,2%
têm “ficar sozinho” como principal gatilho
795
cães brasileiros na amostra da LCAS-Br (2025)
Fonte: Adaptação brasileira da LCAS, ScienceDirect, 2025

Fogos de artifício como primeiro gatilho de ansiedade não é uma descoberta surpreendente — mas a magnitude no Brasil tem uma explicação cultural que os estudos internacionais não capturam. O cachorro brasileiro está exposto a queimas de fogos em escala e frequência que poucos países reproduzem: Réveillon, São João, festas juninas regionais, comemorações de gol em cidades com times grandes, fogos de favelas em datas diversas. Uma regularidade que não tem equivalente nos EUA ou na Europa.

Dado relevante para donos de SRDs Cães com histórico de rua — que dormiam ao relento nas noites de Réveillon e São João — podem ter desenvolvido sensibilidade extrema a fogos de artifício antes mesmo de serem adotados. A dessensibilização a esse estímulo específico é frequentemente necessária e pode exigir suporte veterinário, especialmente em épocas do ano com alta frequência de queimas.

Apartamento, separação e o cão urbano brasileiro

Um estudo exploratório realizado em Niterói, Rio de Janeiro, e publicado no SciELO, avaliou a prevalência da SASA (Síndrome de Ansiedade de Separação em Animais) em cães de apartamento. A amostra, embora localizada, tem valor por retratar uma realidade típica das metrópoles brasileiras: cidades densas, apartamentos pequenos, donos que trabalham fora.

Estudo — SciELO Brasil · Ciência Rural
Ansiedade de separação em cães de apartamento — Niterói, RJ

Contexto: Avaliação exploratória em bairro residencial de Niterói, RJ, por meio de dois questionários aplicados a donos de cães de apartamento.

Resultado principal: 55,9% dos cães avaliados apresentaram sinais característicos de SASA.

Manifestações mais frequentes: vocalizações excessivas (53,8%), comportamentos destrutivos (46,1%) e comportamentos depressivos (34,6%).

Impacto colateral: O estudo também identificou impacto negativo na qualidade de vida dos proprietários — dado relevante para entender por que esses comportamentos chegam até os adestradores e veterinários.

Nota metodológica: Estudo exploratório de amostra local — não é representativo do Brasil, mas retrata com precisão o perfil urbano de uma cidade como Niterói ou qualquer capital brasileira de densidade comparável.

O número de 55,9% contrasta fortemente com os 9,3% encontrados por Serpell e Powell na reanálise dos dados americanos — e com os 85,9% da análise original de Beaver. A diferença não indica que o cachorro brasileiro tem mais ansiedade de separação do que o americano. Indica, principalmente, que o contexto importa: apartamentos menores, donos que trabalham mais horas fora, menor acesso a quintal e espaço de decompressão.

O contexto urbano como fator de risco A SASA não é uma condição que o cão “tem” ou “não tem” por natureza. É o resultado da interação entre predisposição individual e ambiente. Um apartamento de 60m² em Niterói oferece menos recursos de decompressão do que uma casa com quintal em subúrbio americano. Não é um julgamento — é uma variável que precisa ser levada em conta na avaliação e no manejo.

Braquicefálicos e agressividade: o dado que todo dono de Bulldog precisa conhecer

Cachorro brasileiro braquicefálico Bouledogue Francês deitado no sofá com expressão de tensão
Bulldogs, Pugs e Shih Tzus lideram as raças de focinho curto no Brasil. A pesquisa da USP encontrou associação entre morfologia braquicefálica e maior agressividade direcionada ao dono.

Em 2022, pesquisadores do Instituto de Psicologia da USP e da UNIFESP publicaram na Applied Animal Behaviour Science um estudo com 665 donos de cães brasileiros, investigando a relação entre fatores morfológicos, ambientais e sociais e os perfis de agressividade. O estudo, financiado pela FAPESP, é até agora o trabalho de maior escopo sobre agressividade canina com dados do Brasil.

Estudo — Applied Animal Behaviour Science · 2022
Perfis de agressividade em cães domésticos brasileiros

Autores: Flávio Ayrosa, Carine Savalli, Natália Albuquerque, Briseida Resende — USP/UNIFESP

Amostra: 665 donos de cães brasileiros, questionários aplicados durante a pandemia de COVID-19

Principais achados:

— Cães braquicefálicos (focinho curto: Bulldog, Pug, Shih Tzu, Boston Terrier) foram relatados como mais agressivos com o próprio dono do que cães de focinho médio ou longo.

— Cães de donos que os passeiam diariamente apresentam menos agressividade — mas a direção causal é ambígua: o dono pode passear menos porque o cão é agressivo, ou o cão pode ter se tornado mais agressivo pela falta de passeios.

— Cães mais leves tendem a ser mais reativos a estímulos negativos do que cães mais pesados.

— Cães mais jovens apresentam maior reatividade a estímulos negativos do que cães mais velhos.

O dado sobre braquicefálicos merece atenção particular. Bulldogs, Pugs, Shih Tzus e raças similares experimentam o mundo de forma diferente: têm dificuldade respiratória crônica em graus variados, tolerância menor ao calor, e possivelmente maior desconforto físico cotidiano do que raças sem problemas respiratórios. A relação entre desconforto crônico e irritabilidade comportamental — bem documentada em humanos — ainda está sendo investigada em cães, mas a associação encontrada no estudo brasileiro não é surpreendente para quem trabalha com medicina veterinária comportamental.

Para donos de braquicefálicos Bulldog, Pug e Shih Tzu com comportamento agressivo com o dono merecem avaliação veterinária antes de qualquer programa comportamental. Desconforto físico — dificuldade respiratória, calor excessivo, dor articular — pode ser a causa primária. Tratar o comportamento sem tratar o desconforto que o gera é trabalho incompleto.

O gênero do dono importa — e ninguém esperava isso

Um dos achados mais inesperados do estudo da USP/UNIFESP diz respeito ao gênero do dono como variável preditiva de agressividade do cão.

Cães de donas mulheres apresentaram ausência de agressividade com estranhos em 73% mais casos do que cães de donos homens. O grupo de pesquisadores foi cuidadoso em não atribuir causalidade direta: a diferença pode refletir padrões de interação, estilo de comunicação, consistência de rotina, ou simplesmente o fato de que mulheres relatam comportamentos de forma diferente em questionários. Mas a associação é estatisticamente robusta e aparece em outros estudos do mesmo grupo com metodologias diferentes.

O mesmo padrão aparece em outros dados: cães de donas mulheres também apresentaram mais comportamentos de separação e mais busca de atenção — o que sugere um vínculo mais intenso, com as implicações positivas e negativas que isso traz.

O que o C-BARQ brasileiro revelou de diferente

O C-BARQ (Canine Behavioral Assessment and Research Questionnaire — Questionário de Avaliação e Pesquisa Comportamental Canina) é o instrumento de avaliação comportamental mais usado no mundo. Desenvolvido por James Serpell na Universidade da Pensilvânia em 2003, ele foi traduzido e adaptado para dezenas de idiomas e culturas. A versão para o cachorro brasileiro chegou em 2021.

A versão brasileira, publicada em 2021 por Savalli et al. na Applied Animal Behaviour Science, revelou diferenças estruturais importantes em relação à versão norte-americana. O C-BARQ original tem 14 fatores. A versão brasileira identificou 12 — alguns fatores presentes na versão americana não se separaram da mesma forma na amostra brasileira, sugerindo que as categorias comportamentais percebidas pelos donos são organizadas de forma diferente em contextos culturais distintos.

Por que a validação cultural importa O que um dono americano chama de “ansiedade” e o que um dono brasileiro chama de “ansiedade” podem não ser exatamente o mesmo comportamento — ou podem ser o mesmo comportamento percebido em intensidades diferentes. Instrumentos de avaliação que não consideram esse filtro cultural superestimam ou subestimam prevalências. A validação do C-BARQ para o Brasil é, portanto, pré-requisito para qualquer dado nacional que pretenda comparação internacional válida.

Outros achados específicos da versão brasileira do C-BARQ: cães de donas mulheres apresentaram maior probabilidade de comportamentos de separação, medo de outros cães e excitabilidade. Cães que não são levados para passeios mostraram mais agressividade com estranhos e mais comportamento de busca de atenção. Cães SRDs tiveram perfil de medo mais elevado do que cães de raça em múltiplas categorias.

O que a ciência brasileira ainda não sabe

É importante ser preciso sobre o que existe e o que ainda falta. A pesquisa nacional em comportamento canino é recente, com amostragem relativamente pequena e concentração geográfica no eixo São Paulo-Rio. Não existem ainda estudos epidemiológicos nacionais de grande escala sobre reatividade ou agressão canina no Brasil — os dados disponíveis são regionais ou por amostragem não representativa.

O próprio grupo do LECA/UNIFESP reconhece essa limitação. Em revisão do campo, pesquisadores brasileiros identificaram que apenas 4 trabalhos epidemiológicos sobre ansiedade de separação foram publicados no Brasil na última década — contra dezenas nos EUA e Europa.

O que existe, no entanto, é suficiente para afirmar com segurança: o cachorro brasileiro tem particularidades que exigem adaptação das abordagens desenvolvidas no exterior. O SRD com histórico de rua, o cachorro brasileiro de apartamento em metrópole tropical, o braquicefálico em clima quente — são perfis que a ciência americana não estudou e a europeia não reconhece como prioridade.

Próximo da série · Artigo 3 de 3
O que funciona: o guia baseado em evidência para cães reativos e ansiosos
Conceito entendido. Dados do Brasil mapeados. O que fazer agora? O terceiro artigo da série reúne o que a ciência sabe sobre modificação comportamental — dessensibilização, contra-condicionamento, gestão do ambiente e o papel dos psicofármacos quando o comportamento está além do que o manejo resolve.

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Fontes Savalli, C., Albuquerque, N., Vasconcellos, A.S., Ramos, D., Mello, F.T., Mills, D. Assessment of emotional predisposition in dogs using PANAS (Positive and Negative Activation Scale) and associated relationships in a sample of dogs from Brazil. Scientific Reports, 9, 18386, 2019. nature.com

Savalli, C., Albuquerque, N., Vasconcellos, A.S., Ramos, D., Serpell, J.A. et al. Characteristics associated with behavior problems in Brazilian dogs. Applied Animal Behaviour Science, 2021. (Validação do C-BARQ para o Brasil) sciencedirect.com

Ayrosa, F., Savalli, C., Albuquerque, N., Resende, B. Relationships among morphological, environmental, social factors and aggressive profiles in Brazilian pet dogs. Applied Animal Behaviour Science, 256, 105766, 2022. sciencedirect.com

Ayrosa, F., Albuquerque, N., Savalli, C., Resende, B. Size, skull shape and age influence the temperament of domestic dogs. Behavioural Processes, 197, 104606, 2022.

Adaptação brasileira da Lincoln Canine Anxiety Scale (LCAS-Br). Adaptation and psychometric properties of the Brazilian version of the Lincoln Canine Anxiety Scale. ScienceDirect, 2025. sciencedirect.com

Soares, G.M. et al. Estudo exploratório da síndrome de ansiedade de separação em cães de apartamento. Ciência Rural, SciELO Brasil. scielo.br

LECA — Laboratório de Etologia Canina, UNIFESP. lableca.unifesp.br

ABINPET — Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação. Mercado Pet Brasil. abinpet.org.br